“É quase como fingir que sou nada, fingir que não sou o que me apetece e o que carrego como peso extra no peito. Cortei em pequenos pedaços e deixei os fragmentos jogados pelo quarto, sempre por debaixo do tapete ou atrás dos livros empoeirados. Nunca tive coragem de lê-los, apesar de carregar no peito uma paixão gigante pela leitura, mas cada um deles foi tocado por mãos que não me guardam mais, mãos que antes afagavam minha face um pouco antes de esbofeteá-la com palavras e despedidas. Cada livro tem uma historia própria e uma a mais que carrega e me lembra o tempo em que fora comprado ou ganhado. Saudade. Saudade é o que adorna a maioria, e outra parte carrega um abismo enorme deixado por um ou outro amor não correspondido. Não é o certo chamar de amor, não. Amor não é como a flor que murcha, amor que é amor dura até mesmo com a seca. Finjo que nada disso aconteceu, nada disso se infiltrou na estante e se aninhou nas páginas dos livros. Parece que meus pés são de vidro e logo depois minhas pernas, sinto que em breve meu corpo. Serei vidro frio e oco, e não apetece ao que é de vidro o sentir. Eu quase que finjo que não me importo, quase que finjo não ver a transparência dos meus pés, quase que ignoro o fato de terminar em cacos. Literalmente.”
“Sabe como é acordar e saber que o celular não vai tocar com uma mensagem sua dizendo “Bom dia meu amor”?”
“Mas você tem.. Tem meu coração, meu sorriso, meus braços, meu olhar, minha voz, meu corpo. Me tem todo e completamente.. Me tem, somente.”